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Fiquei muito feliz com o convite da Daniela Falcão, Diretora de Redação da revista Vogue, para escrever uma pequena crônica para esta revista sobre minha experiência de sair da cidade grande  e vir morar no interior.  Conto um pouco  sobre os desafios e surpresas que encontrei, sobre aquilo que aprendi a gostar e do que sempre senti falta.

A Vogue de novembro está incrível e ainda dá muitas dicas de moda, gastronomia e cultura de Ribeirão Preto e de outras cidades do interior de São Paulo: Araçatuba, Campinas e Campos de Jordão. É o “Brasil no Brasil” na Vogue, não percam :-D

Clique na foto para abri-la em tamanho maior e ler o texto na íntegra.

 

Neste post comecei a falar sobre literatura de viagem e inclui uma lista de livros de viagem indicados pelo jornalista e escritor falecido, Daniel Piza.

Em seguida, na blogagem coletiva organizada pelo grupo Viaje na Leitura do Facebook, relacionei minhas leituras e recomendações de diários de viagens.

Mas há muito mais relatos de viagem que estão na minha lista de desejos. Compilei, abaixo, dicas de amigos viajantes de outros bons diários de viagem. Agradeço às viajantes e blogueiras @camilanavarro do Viaggiando,  @Marcie14 do Abrindo o Bico@pbicudo do Big Trip@reinforzato do Direto de Paris e @viajantete do Escapismo Genuíno pelas indicações. Vem com a gente!

A LISTA DE DESEJOS

DAVID BYRNE - Diários de Bicicleta

É ele mesmo, o ex-integrante do grupo Talking Heads. David Byrne há 30 anos optou pela bicicleta como seu meio de transporte principal e desde os anos 80 a usa no seu dia a dia, tanto em Nova York onde mora como nas cidades por onde faz shows. Para isto, quando viaja, leva uma bicicleta dobrável na mala :-) No livro ele conta das pedaladas em Londres, Sydney, Manila, São Francisco e Buenos Aires, além de Nova York. Indicação da Tete Lacerda. Não dá mesmo vontade de ler?

AIRTON OIRTZ - Expresso para a Índia

Foi a Renata Inforzato que me “apresentou” ao Airton Ortiz, um dos mais profícuos escritores brasileiros de diários de viagem.  Explorador, aventureiro, fotógrafo e escritor profissional, Airton Ortiz desde 1997 viaja pelo mundo e escreve sobre suas jornadas. Entre 1999 e 2007 escreveu nove livros, muitos deles premiados,  que vão da África a Amazônia, passando pela Índia, Egito e outros. Além do Expresso para a Índia, outros livros dele: Aventura no topo da África, Na Estrada do Everest, Pelos caminhos do Tibete, Cruzando a Última Fronteira,  Travessia da Amazônia, Egito dos faraós e Na trilha da Humanidade.

MICHELLE WEISS E ROY RUDNICK - Mundo por Terra

Uma indicação da Tete Lacerda, o  livro Mundo por Terra – Uma fascinante volta ao mundo de carro é um relato da viagem do casal Roy e Michelle, uma volta ao mundo de carro, cruzando 5 continentes, 60 países e 160.733 km, em 1.033 dias.  Interessante que o Mundo por Terra virou um projeto ainda maior, pelo qual o casal de viajantes dá palestras e faz exposições fotográficas de suas viagens. Depois da volta ao mundo, fizeram ainda uma expedição pelos desertos do Atacama e Uyuni, pela Transamazônica e pelo Paraguai, Bolívia e Peru.

FRANCES MEYES - Um ano de viagens

Li o Sob o sol da Toscana, mas confesso que achei um pouco arrastado demais. As melhores partes do livro são as receitas mesmo :-)  Mas fiquei com mais vontade de ler o Um ano de viagens, no qual a norte-americana Frances Mayes conta da viagem que fez com o marido, Ed, pela Espanha, Portugal, França, Ilhas Britânicas, Turquia, Grécia, sul da Itália e norte da África. Este foi outra indicação da Tete Lacerda.

MARK TWAIN - The Innocents Abroad

Quando seus textos publicados em jornais norte-americanos começaram a se tornar populares, Mark Twain foi contratado pelo jornal Sacramento Union para produzir relatos das viagens que realizava. A primeira delas foi a bordo do barco a vapor Ajax, na sua viagem inaugural para o Havaí, chamado na época de Ilhas Sandwich. Em 1867 foi contratado por outro jornal, que custeou sua viagem ao Mediterrâneo, um cruzeiro com duração de cinco meses a bordo do navio Quaker City.  A viagem resultou no livro The Innocents Abroad, publicado em 1869. Uma indicação da Marcie Pellicano. Este livro não foi publicado no Brasil, mas há uma versão em português publicada em Portugal, chamada A viagem dos inocentes.

PAUL THEROUX - O safári da estrela negra

Não faltaram indicações de leitura dos livros do Paul Theroux: a Renata Inforzato, a Camila Navarro e a Paula Bicudo leram e recomendaram os livros deste que é um dos grandes escritores de diários de viagens do mundo. O safári da Estrela Negra é o relato de uma viagem do Cairo à Cidade do Cabo, pelo trajeto do rio Nilo, passando pelo Sudão, Etiópia, Quênia e Uganda, terminando na África do Sul. Viajando de trem, canoa e caminhão, Theroux mostra um retrato muito interessante da África.

N’ O grande bazar ferroviário, que é na verdade uma grande viagem de trem em veículos tão diferentes como um trem caindo aos pedaços na Índia e o trem-bala no Japão,  Theroux sai de Londres e passa pela Itália, Iugoslávia, Bulgária e Turquia. De lá atravessa o Irã, o Afeganistão e o Paquistão para chegar à Índia. Em seguida pega um trem na Birmânia e passa pela Tailândia, Malásia, Cingapura, Camboja e Vietnã. A viagem termina nos trens-bala do Japão e em um último trajeto pelo Expresso Transiberiano, cruzando o interior da União Soviética.  Demais, não é? :-D

Outro livro no qual Theroux narra uma viagem de trem, passando pela Rota da Seda, é o Trem fantasma para a Estrela do Oriente.

 

Semana passada, em um texto sobre o Daniel Piza,  comecei a falar sobre literatura de viagem. Que abrange desde os livros de viagem propriamente ditos, ou ‘diários de viagem’, que relatam percursos e jornadas – até os livros que nos levam a viajar por outras culturas.

Este tema de literatura de viagem foi também objeto de discussão em um grupo virtual de leitoras viajantes. E foi neste grupo que surgiu a ideia de fazermos uma blogagem coletiva sobre os cinco livros que marcaram nossa vida de leitoras. Aproveitando o tema, escolhi falar sobre os cinco ‘diários de viagem’ que mais me marcaram.

Que inspirem outros leitores viajantes :-)

CINCO LIVROS  DE VIAGEM QUE ME MARCARAM

AMYR KLINK - Cem dias entre céu e mar

Foi o primeiro diário de viagem que li, ainda adolescente. Amyr narra sua primeira travessia solitária a remo no Atlântico Sul, entre o Brasil e a África, realizada em 1984, uma jornada de 3.700 milhas e 100 dias pelo Atlântico.  O livro podia ser chato, mas Amyr descreve toda a preparação da viagem, seus sentimentos durante o planejamento, a emoção da partida e da chegada, as conversas com os objetos e animais que aparecem no seu caminho durante a travessia, com muita prosa e um quê de poesia. Cem dias entre céu e mar foi uma leitura bastante marcante na época em que o li, uma fase pós-adolescência e início de vida profissional na qual eu precisava de exemplos de foco, planejamento, trabalho duro e conquistas de objetivos e sonhos :-)

JON KRAKAUER - No ar rarefeito

Li quase todos os livros deste autor, que é certamente um dos meus prediletos. Adorei Onde os homens conquistam a glória e A bandeira do Paraíso. Mas foi No ar rarefeito - um relato de viagem da sua expedição ao Everest –  que me cativou. Krakauer foi contratado por uma revista para participar e depois escrever sobre uma expedição ao topo do Everest, com o propósito de fazer uma crítica à “comercialização” do turismo de aventura nos dias de hoje. Ele não chega ao topo, mas no trajeto presencia a morte de um alpinista, encontra muitos tipos interessantes e se depara com uma série de problemas, como o excesso de lixo deixado pelos turistas. Krakauer faz justamente um contraponto ao Klink, já que mostra pessoas que querem realizar um sonho e atingir uma meta, mas sem o planejamento e preparo necessários.  Acho sensacional como ele consegue intercalar os relatos e descrições com doses de aventura, suspense, visão crítica e sem preconceitos.

TIZIANO TERZANI – Um adivinho me disse

Escrito por um jornalista italiano que viveu na Ásia, o livro nasceu de uma visita que fez a um “adivinho”, que lhe recomenda não viajar de avião durante um ano de sua vida, que é 1993. Terzani então passa o ano todo viajando a pé, de barco, de ônibus, de carro e de trem por vários países asiáticos, entre eles Burma, Tailândia, Laos, Cambodia, Vietnam, China, Mongólia, Japão, Indonésia, Singapura e Malásia. As viagens mais lentas possibilitam a ele ter mais contato com a população dos lugares por anda passa e rende boas histórias. Ele, inclusive, faz da consulta a adivinhos um hábito durante toda a jornada. Tendo em vista as transformações sofridas neste pedaço de mundo nos últimos anos, imagino que várias das descrições dos países visitados estejam defasadas. Mas em geral ele dá uma ideia muito boa de como vivem os povos asiáticos nos países (naquela época, pelo menos) ainda pouco “contaminados” pelo mundo moderno e pela influência ocidental. Leitura muito bacana para quem pretende conhecer estes países.

HANS CHRISTIAN ANDERSEN - Travels

Sim, o escritor dinamarquês de livros infantis foi um viajante e escreveu textos interessantes sobre suas viagens, que foram reunidos em um livro chamado Travels (sem tradução em português). Uma dica da Marcie. Andersen conta sobre suas viagens pela Europa Ocidental e Oriental, passando pela França, Alemanha, Áustria, Itália, Grécia, Turquia, Romênia e Hungria, entre outros países, em uma época que viajar não era comum e nem fácil. O mais bacana no livro é tomar contato com a personalidade deste autor de histórias tão famosas e que cativam até hoje, como “A Pequena Sereia”, “A Princesa e a Ervilha” e o “O Patinho Feio”.  Andersen é uma figura, um tanto ingênuo e suscetível a críticas, por vezes cômico nas descrições e observações, por outras detalhista e ótimo cronista. Nas andanças pela Europa ele encontra grandes nomes das Artes (Heine, Liszt, Mendelssohn, Victor Hugo e Balzac, por exemplo), outros tantos tipos anônimos interessantes e visita uma série de lugares. É curioso perceber que os viajantes só mudam mesmo de época e de endereço :-)

JOSÉ SARAMAGO – A viagem do elefante

Este livro é diferente dos demais, porque não narra a viagem de uma ou mais pessoas, mas a jornada de um elefante de verdade mesmo :-) Foi o único livro de Saramago que li, e muita gente mais escolada nas leituras deste autor português acha este livro leve demais. Talvez seja por isto que gostei dele…  Saramago teve a ideia do livro quando, durante uma viagem a Áustria, entrou em um restaurante em  Salzburgo chamado ‘O Elefante’ e ouviu a história do elefante que cruzou a Europa, entre Lisboa e Viena, como um presente de casamento do rei de Portugal D. João III ao arquiduque austríaco Maximiliano II. Uma delícia de ler este livro, cheio das sutis ironias do Saramago, principalmente criticando a burocracia, o poder e os excessivos salamaleques e gastos de um governo.

Semana que vem, minha lista de desejos de outros ‘diários de viagem’ muito bacanas!

 

Participam desta blogagem coletiva:

Camila Navarro do Viaggiando

Helô Righetto do Básico e Necessário

Karine Fontes do  Caderninho da Tia Helo

Luciana Betenson do Rosmarino

Mari Campos do Pelo Mundo

Mo Gribel do Por Onde Andei

Renata Inforzato do Direto de Paris

Em grupos de discussão no Facebook, que reúnem pessoas que gostam  muito de ler e de viajar, surgiu o tema dos livros de viagem. Diria que são duas as categorias. A dos livros de viagem propriamente ditos, ou os diários de viagem, que relatam viagens, percursos, trilhas. E outra dos livros que nos levam a viajar por  culturas diferentes.  Como leitora e viajante contumaz, gosto muito dos dois tipos.

Pois esta primeira categoria de livros me lembrou muito do Daniel Piza, um cara sensacional que, infelizmente, foi embora muito cedo deste nosso mundo. Tenho muita saudade dos textos do Daniel, um cara extremamente culto e bastante maduro para a idade, que escrevia textos sempre muito ponderados.

Há um do Daniel, em especial, que tirei do jornal O Estado de S. Paulo e pendurei junto a outros textos queridos no meu mural no escritório. Este texto, do qual recortei sem querer a data, foi escrito por ocasião da Copa do Mundo na África do Sul em 2010 e chama-se O vento do mundo.

Como sempre, um baita texto do Daniel. Do qual divido com vocês algumas passagens.

“É uma expressão que li no jornalista H.L. Mencken, “to feel the wind of the world on your face”, quando falava da necessidade do jornalista e escritor  de ver as coisas por si próprio, de se mexer e viver experiências que não fazem parte de suas origens sociais e/ou geográficas.”

“…qualquer pessoa só terá a ganhar se sair do seu mundinho, abrindo a cabeça para outras realidades, ainda que incômodas. Somos condicionados de muitos modos pela criação que tivemos, o que significa que precisamos nos recriar para nos ver melhor, e nada como ter contato com outras classes e culturas para perceber os condicionamentos.”

“A boa narrativa de viagem não é escrita com facilidade. O escritor precisa vencer boa parte dos preconceitos e fazer um novo encontro entre a sua subjetividade e aquilo que objetivamente viu e viveu; precisa combinar o pessoal e o informativo, o ponto de vista e o desprendimento, a crônica e o ensaio.”

Daniel Piza, no texto, indica uma série de livros de viagem bacanas. São eles:

    • Ébano, de Riszard Kapuscinsky: ”Kapuscinsky viajou décadas por quase todos os cantos da África, e essa coletânea é a melhor introdução ao seu trabalho.”
    • O Safári da Estrela Negra, de Paul Theroux: ”Theroux conta uma viagem inacreditável que fez: desceu do Cairo até a Cidade do Cabo, nos mais variados meios de transporte, conversando sempre com os habitantes.”
    • Sir Richard Francis Burton, de Edward Rice: ”biografia do explorador e erudito Sir Richard Francis Burton, uma narrativa poderosa de sua busca pela foz do Nilo e sua conversão ao islamismo”.
    • Arabian Sands, de William Thesinger: ”Thesinger virou lenda com suas viagens e seu estilo; sua obra mais famosa, Arabian Sands, é estudada em todos os cursos do gênero”. (sem tradução para o português)
    • Journey without maps, relato de Graham Greene sobre a Libéria. (sem tradução para o português)
    • African Diary, de Bill Bryson. (sem tradução para o português)

Claro que estes livros foram para a minha loooonga lista de livros para ler. Paul Therox é bastante conhecido e já foi recomendado por muita gente. Bill Bryson é um escritor do qual já li outros livros e gosto muito.

Mas este assunto ainda rende muita conversa. Nas próximas semanas, uma lista compilada por mim e por amigos de bons livros de viagem. E, mais para frente, recomendações também de livros que viajam por outras culturas, tão bacanas para ler antes de ir para algum lugar.

Saudades, Daniel.

 

Muita gente torce o nariz quando digo que incluo, sempre que possível, museus nas programações de viagem com os filhos. Tem desde pais que acham que criança só gosta de praia, piscina, parque de diversões e compras até aqueles que fazem muxoxo dizendo que nós vamos aos museus porque queremos, e não por eles.

É claro que nós gostamos de museus, mas nossas viagens com os filhos são preparadas de acordo com os interesses deles em primeiro lugar. E os museus estão lá porque achamos que eles vão gostar. E eles gostam! Até hoje (quase) não erramos :-)

Assim, aqui vão algumas dicas para quem viaja com os filhos, quer incluir museus e fazer destes um passeio divertido. Vamos lá.

 Existe museu de todo tipo

A gente sabe mas às vezes esquece que museu não é só de arte ou história :-) Pesquise bem os museus existentes no local para onde você vai, levando em conta a idade, o sexo e a maturidade do seu filho. Nós, por exemplo, temos dois meninos pré-adolescentes e aprendi que eles gostam muito de coisas assustadoras, armas e artefatos de  guerra, bichos, esportes e meios de transporte. Ou seja, os museus que fizeram mais sucesso até hoje foram o Museu do Futebol em São Paulo-SP, o Museu da TAM em São Carlos-SP, o Imperial War Museum  em Londres, o Air and Space Museum e o Natural History Museum em Washington e o Intrepid em Nova York.  Obs. menção (des)honrosa seja dada aos museus de cera, que são uma maravilha para as crianças e normalmente o terror  dos pais, principalmente pelas longas filas e salas lotadas. Muna-se de paciência e vá, eles adoram :-)

Mesmo os museus menos lúdicos valem a pena

Não dá para ficar apenas nos museus mais lúdicos. Pais que gostam de museus em geral já podem engajar os filhos na Arte e na História. E os museus de arte e históricos têm, sim, atrações que interessam a eles. Por exemplo, o British Museum tem a seção de múmias, que meus filhos adoraram.  No Metropolitan há uma seção de cavalos e cavaleiros em armaduras completas e muitas espadas. Eles também gostaram das grandes esculturas  antigas nestes dois museus.

Mas levar criança em museu de arte requer um planejamento cuidadoso. É importante que os pais façam uma pré-seleção de algumas obras importantes/interessantes do museu para visitar e façam uma lição de casa antes de ir ao museu. Na hora da visita, o ideal é fazer o percurso direto por estas obras e explicar pra as crianças conceitos, ideias e curiosidades. Esta foi a nossa estratégia para a visita ao Museu do Prado. Nossa lição de casa, neste caso, foi o Guia do Museu do Prado da Patricia do blog Turomaquia, que recomendo muito.  Outra ideia:  se os pais dominam a língua do local, muitas vezes vale a pena pegar um tour guiado, que normalmente não dura mais do que uma ou duas horas. Os pais podem dar uma ajudinha nas traduções e o passeio fica mais dinâmico.

Lojinha de museu é muito bacana

Lojinha de museu é muito legal e eles curtem tanto quanto a gente!  Normalmente há brinquedos e livros diferentes das lojas normais e é uma ótima maneira de lembrar depois das obras que eles viram no museu. Deixe-os explorar as lojinhas e levar uma lembrança para casa. E vai dar mais vontade de visitar outros museus no futuro. A melhor loja de museu que já vi na vida foi a do Spy Museum em Washington. Se passar por lá, não perca, divertida para crianças e adultos também!

Paradas para descanso e comida são obrigatórias

Sou daquelas capazes de andar 4 ou 5 horas em um museu sem descanso :-) Mas criança é diferente. Eles cansam muito mais rápido e ficam entediados. Assim, o ideal no caso dos museus maiores é dar uma parada para ir ao banheiro, tomar alguma coisa, fazer um lanche sentados. E depois continuar o passeio pelo  museu. O Marcio do blog Janela Laranja, que tem bastante experiência de viagens com criança pequena,  lembrou também que é importante, no caso dos pequenos que são bem menos flexíveis, respeitar os horários de fome e sono.

Brincar no museu pode sim

Quando digo brincar, não quero dizer brincar com as obras do museu e nem brincar de pega-pega ou esconde-esconde pelos seus corredores :-)

Muitos museus hoje em dia são interativos ou têm atrações e brincadeiras para as crianças. O Museu do Futebol, a Estação Ciência (não sei quais as condições em que se encontra hoje, mas meus filhos aproveitaram muito há alguns anos) e o Espaço Catavento em São Paulo são bons exemplos de museus interativos. Muitos museus nos EUA permitem que as crianças entrem em espaçonaves e outros artefatos. Os museus Smithsonian em Washington tem cinemas I-Max que passam filmes em 3D relacionados ao tema em exposição, além de simuladores de voo e outras brincadeira interativas. Respire fundo, abra a carteira novamente e entre na fila do brinquedo. Faz parte do show!

No caso das crianças pequenas, o Marcio do Janela Laranja deu a ótima ideia de levar brinquedos ao museu. Quando a criança cansa, os pais podem dar uma paradinha para ela brincar com algo que já está familiarizada. E de lambuja os pais podem revezar. Um fica com a criança brincando e o outro passeia no museu. O museu também pode virar cenário de brincadeiras. Quando o Marcio levou a filha de 3 anos ao Espaço Catavento, em São Paulo, depois da visita o lugar virou cenário de brincadeiras: “O jardim do museu Catavento fica no antigo Palácio das Indústrias. Não deu outra, depois de visitar o museu ficamos brincando que lá era o palácio das princesas. Resumindo, a visita do museu vira uma grande brincadeira, com muita coisa nova e interessante para eles verem”.

Outras estratégias de sucesso

Muito importante: lembre-se de deixar o mais interessante para o fim! Assim, quanto maior for o cansaço, mais bacanas ficam as atrações a ser visitadas. Outra coisa: não se atenha (muito) ao planejamento. Já houve ocasiões em que achei que meus filhos gostariam de algo e eles acharam chato. Pule logo esta parte e siga em frente, sem dó. Por fim: museu com criança, pela minha experiência, não dura mais do que 2 ou 3 horas. Eles cansam mesmo! A programação deve levar em conta este período de estada total no museu, mesmo para aqueles museus enormes e com vários andares.

E aproveitem! Museu é uma ótima ocasião para os pais brincarem e interagirem com os filhos :-)

Sempre procurei ajudar instituições, mas nunca tive com elas envolvimento pessoal. Até dois anos atrás, quando comecei o trabalho no Pró-Família de Ribeirão Preto e mergulhei em um projeto social de longo prazo. Não só por ter mais tempo e disponibilidade, mas também pela identificação com a equipe de voluntárias do Pró.

O trabalho do Pró Família teve início em 1994 com um grupo de apoio à gestante na Favela da Mangueira, em Ribeirão Preto, onde vivem cerca de 1.500 pessoas. Este trabalho levou à criação de uma escola de educação infantil onde atualmente são atendidas 104 crianças de 2 e 5 anos; além das palestras, cursos e oficinas para as mães e famílias da comunidade.

Além da eficiência e seriedade,  a turma de voluntárias do Pró é gente engajada, simples, tranqüila e alto astral, que pega no pesado se for preciso e com quem não há tempo ruim.

Convidada pela Leca, comecei a fazer um trabalho semanal na Oficina de Costura e Ponto-Cruz. Lá encontrei a Dani, a Cláudia e outras voluntárias que hoje são amigas queridas. O projeto da Oficina é ensinar, orientar o trabalho e fornecer material para as mulheres da comunidade criarem produtos que são vendidos no bazar no final de ano. Além da Oficina, este ano iniciei e venho tocando um novo projeto, um curso de culinária de aproveitamento de alimentos.

Enfim, tudo isto para falar do livro “Receitas de Família – volume 2” :-)

Iniciamos este trabalho em fevereiro do ano passado. As voluntárias do Pró foram atrás de amigos e familiares para conseguir receitas não só “de família”, mas também “aquelas que você faz e que todo mundo elogia, que são uma tradição na sua casa”. E as receitas foram chegando.

Tem de tudo um pouco para se tornar um livro “de bancada” de qualquer um que goste de cozinhar. Tem desde receitas sofisticadas como um pato marinado no vinho tinto ou um stinco de cordeiro com polenta trufada, até receitas simples como bolo de chocolate e panqueca. E tem o básico que todo mundo gosta, como uma boa massa de torta salgada, um cabelinho de anjo bem comfort food, um bom pão doce, uma boa receita de biscoito.

O trabalho do livro foi feito “a muitas mãos”. A Marcia, que tocou o projeto de coletar as receitas, eu que fiz a revisão delas, a Daniela que negociou com a editora a publicação do livro, a Roberta que idealizou os patrocínios e liderou a equipe atrás deles, a Elisa que trabalhou duro para o lançamento e a divulgação do livro, e as outras que estavam lá para toda obra, inclusive para abrir e carregar caixas pesadas né Sossô, Fernanda, Leca, Cláudia?

Enfim, não é porque é meu filho, mas o livro ficou lindíssimo :-D Desde a introdução simples e bonita da Rosana à capa, ilustrada por uma pintura de cena de piquenique em família feita pela Lolô Junqueira especialmente para ilustrá-lo. A primeira tiragem do livro vem numa linda embalagem de pano em dois modelos, tipo “sacolinha” ou tipo “saquinho”.

Quer um? Para quem está em Ribeirão Preto, o livro está à venda em diversos pontos como Casa Affonso, Carla Amorim/Dei Due, Mercovino, Mabruk, Dona Flor, Maria Cabeleireira, Antonio Bernardo, Montage Interiores, Platino Cabeleireiros e Paraler. Preço: R$ 50,00. Para quem é de fora de Ribeirão Preto, posso mandar o livro pelo correio. O valor do correio para envio de impresso por Registro Módico fica por volta de R$5,00.

Semana que vem tem receita do livro aqui e sorteio de um exemplar para os leitores do Rosmarino. Não percam!

Turismo de aventura está na moda. E não falo aqui do turismo praticado por aventureiros, que põem uma mochila nas costas e saem por aí, para o que der e vier. Quero tecer algumas considerações sobre o turismo de aventura para leigos, ou seja, para nós que viajamos com filhos, que já não estamos na mais tenra idade e nem na mais perfeita forma física, que já queremos um mínimo de conforto e, se possível, unir as aventuras a experiências gastronômicas e outras :-)

Mas por que escrever sobre isto? Porque tenho observado nas viagens que fiz ultimamente uma parcela de brasileiros seduzidos pela moda do turismo de aventura, pelas lindas fotos tiradas por um amigo, pelo status de dizer que foi a este ou aquele lugar – mas que não estão minimamente preparados para este tipo de viagem. E que vão ter suas expectativas um pouco – ou muito – frustradas. E convenhamos, para quase todos nós mortais o tempo e o dinheiro para as férias são bens escassos e precisam ser muito bem aproveitados.

Ou seja, quem quer fazer uma expedição pelas geleiras da Patagônia, pelo deserto do Atacama, pelos rios e florestas da Amazônia, pelas dunas e manguezais dos Lençóis Maranhenses ou ainda um safári na África, entre outros destinos, tem que estar ciente de certos aspectos inerentes a este tipo de turismo. E ver se esta é, de fato, a sua praia. Ou se seria melhor curtir uma praia de verdade, com areia, sol, mar e muito sossego.

Vamos lá.

Turismo de aventura com conforto é caro

Sim, não tem jeito. Os hotéis onde o turismo de aventura é praticado, sejam eles confortáveis ou luxuosos, normalmente ficam no meio do nada: na selva, no deserto, nas geleiras, etc. É quase sempre difícil e caro manter uma estrutura nestes locais, trazer suprimentos e treinar pessoas. E a maioria destes hotéis tem um comprometimento com a sustentabilidade: procuram interferir o mínimo possível na Natureza, promovem programas de reaproveitamento e reciclagem e prestam serviços à comunidade (por exemplo, os guias do Explora Atacama dão aulas de inglês para as crianças da cidade de São Pedro do Atacama), ações que podem encarecer ainda mais a operação do local. Ou seja, só vá se você curte muito este tipo de aventura. Vi gente nestes hotéis que se recusa a acordar cedo para os passeios ou deixa de fazer vários deles para ficar lagarteando na piscina. Nada contra isto, mas financeiramente não compensa mesmo :-)

Respeite os horários e o ritmo da Natureza

Estes hotéis onde se pratica turismo de aventura com conforto (ou luxo) são quase como um acampamento: há horários rígidos para acordar, não se pode atrasar para os passeios e em alguns casos é preciso acordar de madrugada mesmo. Por exemplo, nos safáris na África durante o verão sair tarde significa não ver muitos animais, pois eles se escondem por causa do calor. No Atacama, os gêiseres só aparecem de manhã bem cedo. E experimente andar pelo deserto mais árido do mundo entre 11 da manhã e 3 da tarde! Ou seja, é necessário respeitar o ritmo da Natureza. A pontualidade também é um elemento essencial, já que os passeios normalmente exigem veículos adaptados ao clima e relevo do local, as distâncias são grandes, é necessário ter gente treinada e equipamentos de segurança, pelo que os passeios normalmente são montados para grupos e não individualmente e não dá para simplesmente dormir mais meia hora e deixar todo mundo esperando.

Fique ciente das intempéries

Quando a gente lida com a Natureza, está sujeito às intempéries. Se chover, simplesmente não dá para fazer o safári, já que o carro é aberto. Andou horas e não viu nenhum animal interessante? Acontece. Em alguns lugares as estradas de acesso são precárias e quando chove algumas ficam intransitáveis e simplesmente não dá para fazer determinados passeios. Foi fazer o passeio para observar as baleias e elas não apareceram? Faz parte. Não dá para apertar um botão como na Disney para ver as maravilhas da Natureza. Isto é muito importante principalmente em relação às crianças, pois precisamos gerenciar muito bem suas expectativas neste tipo de viagem. Paciência, não adianta esbravejar, são riscos inerentes ao turismo de aventura.

Prepare-se para passar desconforto

Turismo de aventura, mesmo com conforto ou luxo, demanda algum desconforto e é preciso estar preparado para isto. Primeiro, como já falei acima, a questão dos horários rígidos e de ter que acordar algumas vezes de madrugada. Prepare-se ainda para passar frio, passar calor, ficar no vento, engolir uma montanha de pó, sacolejar num veículo desconfortável por horas, ficar com o sapato cheio de areia ou com a garganta seca, ser comido pelos bichos. Não gostou da ideia? Desista do turismo de aventura, melhor ir mesmo curtir uma praia, andar ao léu pelas ruas de alguma cidade charmosa ou fazer um cruzeiro, o que te apetecer mais.

Porém, se você topar encarar todos estas questões com espírito esportivo, disposição e paciência, será recompensado com grandes emoções e com algumas das experiências mais incríveis que uma pessoa pode ter na vida. Poucas coisas são tão bacanas como o silêncio do deserto ou das geleiras e suas paisagens contrastantes, o som da selva e a observação dos animais vivendo no seu mundo, como se você não estivesse lá. Ou andar a pé dentro de uma floresta e poder explorá-la. Certamente compensa, e muito!


Acordei cedo, nem ouvi o despertador tocar. Li o jornal, tomei café e liguei o computador. Nada. Nenhum som, nenhuma luz. Tudo morto. Já com vontade de chorar, ligo para o namorado para pedir ajuda. O telefone também mudo. Espumando de ódio, volto à cozinha para interfonar para a portaria, claro que deve haver algum problema com a rede do prédio. O interfone mudo me faz ultrapassar a preguiça e me visto para descer. O Paulo, zelador, desnorteado: “Ô Dona Marina, eu vi mesmo que a manhã estava muito calma, sem interfone tocando, mas aí o pessoal já começou a descer desesperado! Ninguém sabe ainda o que está acontecendo, mas é uma pane geral”.

Pego o carro e vou ao dentista. A Débora me avisa: “Dona Marina, a Dra. Alessandra já deve estar chegando, não consigo falar no celular dela, ela não vai gostar porque os computadores, o telefone, tá tudo sem funcionar!”. A Alê chega e entro na sala, estamos indignadas e repetimos várias vezes o que parece ser o bordão da Copa, “não estamos preparados”.

Saio e vou para o escritório. Caos total. Não adianta ficar ali mesmo, resolvo ir pessoalmente ao fórum ver os processos que precisam ser vistos hoje. Achei que o trânsito estaria péssimo, mas as ruas estão tranquilas. Estaciono e atravesso a Praça João Mendes. Parece tão mais limpa do que da última vez em que vim aqui… Encontro a Ana e outros amigos advogados que tiveram a mesma ideia de vir pessoalmente ao fórum. Em meio às reclamações e elocubrações, fico sabendo que nasceu o bebê da Mara e do Daniel, que a Beta está grávida de um menino, que a Norma casou e está em lua de mel na Itália e que a Joana passou no vestibular, em primeiro lugar. Tomamos um café sem pressa, ninguém tem muito o que fazer, e resolvemos visitar o Henrique na Liberdade ali ao lado. Saio do centro às 5 da tarde, feliz, e volto ao escritório só para deixar a papelada (coisa mais antiga) e dar as noticias dos processos para o meu sócio. Trabalho um pouco numa contestação (como o tempo rende sem interrupção de email, Twitter e Facebook) e resolvo visitar meus pais.

Chego lá e minha mãe: “Filha, você está viva! Estava tão preocupada”. “Por que mãe?”Ah, porque a gente fica sem conseguir se comunicar e fica nervosa né?”. Sento para jantar com eles, estava com vontade mesmo desta sopa de lentilhas da minha mãe, está um frio hoje. Tomo um vinho com meu pai e conversamos sobre a vida, a família. Eles me contam que resolveram sair da casa, que já ficou grande demais para os dois, e que vão procurar um apartamento. Parecem felizes com a decisão. Contam da próxima viagem. Não tenho pressa nenhuma em ir para casa, vazia das redes sociais.

Vou para casa finalmente, tomo um banho e mergulho no livro que estava parado e surpresa, é muito bom. Vou dormir. Acordo com o despertador do celular e por um momento esqueço do que aconteceu no dia anterior. Entro no Twitter e o assunto é só este, a pane geral das comunicações. Ligo a TV e fico sabendo que o problema afetou o mundo todo e que vai gerar bilhões em prejuízos.

Já saio atrasada e esbaforida porque perdi tempo demais no Twitter. No escritório, todo mundo com teorias do que pode ter acontecido no Dia da Marmota geek. Faço coro com as minhas impressões, mas já com um pouco de saudades de ontem.

Falei recentemente aqui sobre as minhas avós. Lembranças acompanhadas de uma boa fatia de bolo de maçã.

Mas hoje não tem receita. Quero apenas falar dos avôs, que também foram presenças importantes na minha vida e na minha formação.

Meu avô paterno Olavo faleceu cedo, quando eu tinha 8 anos de idade, mas ainda assim tenho boas lembranças dele. Por um lado bastante rígido e cheio de manias, de outro um homem extremamente íntegro e justo. Curtia passear com os netos e foi com ele que andei de ônibus e de metrô pela primeira vez. Aposentou-se como Corregedor Geral da Justiça de São Paulo e me lembro de quando era estagiária de Direito e vi sua foto no corredor do Tribunal de Justiça, que orgulho que me deu. No Migalhas, o desembargador aposentado Adauto Suannes uma vez contou a seguinte história: “o desembargador Olavo Lima Guimarães, que foi Corregedor Geral da Justiça nos anos 50, costumava ‘fazer visitas’ aos juízes que trabalhavam na comarca da capital. Quando não encontrava o juiz na sala, deixava um bilhete sobre a mesa dizendo ao juiz que lhe telefonasse assim que voltasse do cafezinho. Quando o telefonema não era dado no mesmo dia, ele ‘aconselhava’ o tal juiz a requerer abono da falta dada no dia anterior”. Assim era meu avô :-)

Mas o ensejo do texto de hoje é uma perda recente. Meu avô materno Roque Figliolia nos deixou nesta última semana, aos 99 anos de idade. Viveu tanto e tão bem que nos deu até certa ilusão de que seria eterno… E teve qualidade de vida e força para viver até alguns meses atrás, quando sua chama de vida começou a se apagar. Sua partida deixa muitas saudades, mas a recordação boa de que teve uma vida completa, formou uma família linda e ajudou incontáveis pessoas. Acho um verdadeiro privilégio ter usufruído da companhia do meu avô até meus 42 anos de idade.

Aos sete anos de idade ele perdeu o pai e sua mãe, viúva aos 28 anos, cuidou dos seis filhos com muita garra. Mais tarde, suas irmãs mais velhas foram trabalhar fora para que ele pudesse cursar a faculdade de Medicina na Universidade de São Paulo. Morando em São Paulo sozinho, duros tempos, um dia me confessou que deu até aulas particulares de francês para incrementar o orçamento: “Vô, mas eu nunca vi você falar francês!” E ele: “Pois é, minha filha, é que eu falo muito mal mesmo…” :-)

Um homem contido, sério, mas de extrema bondade e generosidade. Exerceu a profissão de médico pediatra exemplarmente e jamais deixou de atender a um paciente, quem quer que fosse. Foi bastante rígido com as filhas, que colecionam histórias desta época. Minha mãe só podia sair com meu pai, na época seu noivo, se levasse o irmão de 12 anos junto… Uma vez meu avô abriu a porta para o tio Jaime, namorado da tia Inara, e foi logo recolhendo o buquê de flores que ele havia levado! Com o tio Walter, namorado da minha tia Célia, teve uma conversa ‘séria’ para saber quando seria o casório…

Minha lembrança mais legal dele foi a viagem que fizemos para Bento Gonçalves. Desde que tinha voltado de lá fiquei com muita vontade de levá-lo para conhecer o ‘berço’ da imigração italiana. Foi tão bom vê-lo curtindo cada momento do passeio, até em dialeto napolitano ele conversou com uma pessoa da cidade. Deve ter sido sua última viagem, isto foi em 2006, ele já tinha 95 anos! Foi um avô mais contido enquanto a vó Jurema era viva e mimava os netos, mas quando ela se foi de repente imbuiu-se de tal maneira de seu legado de amor e carinho que se tornou um avô muito próximo de todos os netos. Deixou um neto ‘xará’ médico que desde sempre o admirou e quis seguir seus passos, além de um bisneto também com o seu nome. E muitas lembranças e saudades em todos nós.

(agosto de 2008)

“Saudades dele… Durante esse longo período em que ele começou a adoecer, vim fazendo uma retrospectiva sobre a vida dele e toda influência que ele teve na minha. Desde ser médico, de ser sãopaulino, de não gostar de frango… Das inúmeras vezes em que recebeu amigos e familiares, atendendo em casa nos fins de semana e feriados. Nunca cobrava nada, seja de ‘gente fina’ do bairro, gente simples ou familiares dos empregados. Lembro dele contar as histórias da Medicina, das aulas de anatomia, do primeiro parto a fórceps que teve que fazer (com a passagem de trem já comprada para fazer a fuga em caso de insucesso). Da frustração por nunca ter tentado ser cirurgião só porque um professor um dia lhe causou um trauma enorme no centro cirúrgico após uma grande humilhação pela contaminação da cirurgia. Lembro bem do dia em que me deu seu jaleco branco de tecido grosso já bem amarelado, usei esse jaleco até acabar, com orgulho, nas aulas de farmácia, bioquímica e depois no hospital. E quando me perguntavam por que o jaleco estava amarelado e velho, já tinha uma resposta pronta… foi do meu avô, tenho que tratar dele direitinho, esse jaleco tem história. Da época em que estudei no Objetivo perto na casa dele só para depois das aulas ficar ouvindo seus causos médicos e sonhando em um dia quem sabe poder também ajudar as pessoas e ter histórias para contar. E das muitas visitas que me fez em Alfenas durante o curso de Medicina. Já mais adiante da alegria que teve quando passei no concurso para médico da Polícia Militar; dizia que eu estava realizando um sonho dele, já que se não pudesse ser médico, teria sido militar. Depois a época em que me perguntava todos os dias sobre nomes de medicamentos, para ver se ele ainda se lembrava deles. Nesta fase nossas conversas passaram a ser mais desgastantes para ele. porque já não conseguia mais lembrar de tudo e se cobrava demais para se manter atualizado. Grande vovô Roque… guerreiro até o fim, exemplo de vida pra mim, será que chego perto do que ele foi um dia?” (Roque)

Roque I, Roque II e Roque III (fevereiro de 2011)

“Entre tantas lembranças do vovô, lembro-me que ele me falava sempre quando era criança que eu era ‘encostante’, pois vivia me encostando nele, pedindo colo! E, depois, quando cresci e fui morar sozinha, ele me disse: “Menina, não sei como você gosta de morar sozinha… eu odeio ficar sozinho!” E eu acho que é assim que ele estava se sentindo nos últimos tempos, apesar de toda a família estar sempre, sempre, por perto. E agora devemos acreditar que ele não se sentirá mais sozinho, pois vai junto de sua amada e querida vovó Jurema. Pode parecer incoerente, mas apesar da tristeza e da falta que ele vai fazer (e que falta!), eu estou feliz e quero celebrar esta vida maravilhosa que ele teve e esta pessoa tão especial que ele sempre será para mim”. (Juliana)

“Tenho muitas recordações do vovô Roque. Era um homem honesto e dizia sempre que ‘se o malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto por malandragem’. Meu avô não gostava de ir a igrejas ou discutir religião. Mas no íntimo do seu quarto, orava em voz alta e lia a palavra de Deus. Para mim é como se tivesse tido dois avôs em um só. Lembro de um avô bem bravo, que não deixava colocar os pés na poltrona ou que se ficasse de conversa ‘fiada’ ao telefone. Esse avô bravo sofreu uma grande transformação depois que a vovó Jurema se foi. Como ele mesmo dizia, virou um Leão sem jubas. Um novo homem, mas a mesma essência. Gostava de jantar cedo, no máximo às 18h30 e nesse momento aproveitávamos para conversar. Ele contava da sua família; de quando foi professor e colocou um aluno com carteira e tudo pra fora da sala de aula; da época de faculdade quando almoçava e pedia uma “água torneiral” para não gastar mais dinheiro. Duas épocas me marcaram bastante. Primeiro durante a novela Rei do Gado, essa novela trazia muitas recordações para o vovô e ele ficava contando suas histórias. E também durante o trabalho do Nonato (fisioterapeuta que trabalhou com meu avô e virou um amigo) com ele, pois sentávamos juntos, o Nonato contava seus casos… Era muito gostoso, o vovô ficava muito feliz com aquele momento. Chorar e relembrar faz parte. Mas me sinto feliz agora, pois já não aguentava mais ver meu avô sem poder se comunicar, sem ter o brilho e a alegria de viver. Faz parte da vida. Como ele mesmo dizia, começamos a envelhecer e morrer desde o momento que nascemos. Vovô Roque e vovó Jurema nos ensinaram um precioso e raro valor nos tempos de hoje, o valor da família! Tenho muito orgulho por fazer parte da família Figliolia”. (Danira)

“Além das histórias e exemplos há coisas mais corriqueiras que ficam na memória. Me lembro que, logo depois da morte da vovó, os netos solteiros (eu, Danirinha e Estêvão) fizemos um revezamento para dormir na casa dele e desta forma não deixá-lo sozinho nenhum dia, já que sabíamos o quanto ele detestava isso. Isto durou um ano. Dani e Este, vocês se lembram do ferrolho na porta da casa, que “baixava” todas as noites, às 22h? E, teoricamente, quem não estava em casa ficava para fora… Pelo menos era o que ele dizia, mas sinceramente nunca fiquei para fora, e muitas vezes cheguei depois das 22h! Depois de um tempo ele percebeu que isso não funcionava mais e desistiu do ferrolho.  Enquanto morei com ele, passava as noites de quarta-feira assistindo o jogo de futebol na TV. Veja bem, não gosto de futebol! É óbvio que no meio do primeiro tempo já estava dormindo no sofá e meu avô me acordava no final do jogo para ir dormir, acho que só a companhia já deixava ele contente.  São muitas lembranças e muito que aprendi com ele… O que todos nos aprendemos com ele”.(Maíra)

Como disse seu neto Estevão, foi uma honra ter sido sua neta, vô. Vai com Deus e descanse em paz.

(Natal de 2008)

Pragas modernas como o ‘politicamente correto’ e o ‘verde e ecológico’, entre outras, criam polêmicas diárias que são transformadas em discussões intermináveis via Twitter, Facebook e outras redes sociais e comunicações virtuais. Como definiu meu amigo Pedro Barbosa, as armas de destruição em massa da atualidade são o celular com câmera + Twitter.

Não quero aqui fazer uma crítica aos dois exemplos de atitudes que chamei apenas para descontrair e dar um gancho inicial ao texto, de ‘pragas modernas’. Sou politicamente correta, tolerante e respeitosa com crenças, religiões e ideias das quais não comungo. Também procuro viver em linha com o respeito ao meio-ambiente e com a noção óbvia, da qual muitos se esquecem, de que vivemos no mesmo barco e que, se ele naufragar, vamos para o fundo todos juntos. Em casa separamos e reciclamos o lixo, toda a água que usamos é aquecida com energia solar, uso sacolas reutilizáveis nas compras. E procuro comprar, na medida do possível, alimentos frescos, orgânicos e saudáveis.

Mas o que me incomoda mesmo é a falta de bom senso. E a capacidade do ser humano de ouvir uma coisa, não usar o cérebro para processar a informação e apenas deixá-la fluir de um ouvido ao outro – e daí boca afora. Vamos a alguns exemplos.

O mais recente é a polêmica do filtro solar criada pela declaração da modelo Gisele Bündchen de que não usa protetores solares industrializados, pois possuem ‘venenos para a pele’. Gisele diz que não se expõe ao sol e vai à praia entre 5h30 e 8h da manhã! E que, quando necessário, passa zinco para proteger-se do sol, ‘aquela coisa branca e feia.’ Fico cá comigo imaginando eu e meus filhos tentando chegar à praia às 5h30 da manhã. A que horas teremos que ir dormir? E as conversas regadas a uma cerveja gelada, à noite, na varanda com amigos, depois que escurece e fica mais fresco? E as brincadeiras e jogos da criançada depois do jantar? Imagino-me também tentando convencer meu filho adolescente (sim, um dia vocês terão um e me entenderão) de que ele deve passar zinco no rosto e no corpo para ir à praia… aliás, alguém sabe onde vende zinco??

Coincidentemente, Gisele está lançando uma linha de cosméticos ‘naturais’, que certamente terá um filtro solar sem venenos para a pele. Admiro Gisele, mulher inteligentíssima e com senso de timing perfeito.

Outro assunto que desperta emoções é o ‘verde e orgânico’. Pois bem, nem preciso falar sobre a dificuldade de achar produtos orgânicos variados no Brasil, fora dos grandes centros urbanos. Mas vou. Há uma falsa ideia de que é mais fácil achar orgânicos no interior! Agricultura é um negócio como outro qualquer, há muita competição e commoditites têm margem de lucro baixa, ganha-se na escala e na distribuição. Nos grandes centros chegam mais produtos, há mais variedade e preços mais competitivos. Achar orgânicos no interior é trabalho de formiguinha, mesmo. Em Ribeirão Preto, onde moro, há uma produtora certificada de orgânicos que entrega produtos a domicílio. Mas são poucas opções, mais folhas verdes mesmo. Compro o que posso no Pão de Açúcar. Mais uma vez, pouca variedade e quase sempre produtos que estão ‘velhos’, sem frescor. Acrescente-se a isto um filho que come mal e coincidentemente gosta de muitos legumes e frutas que raramente estão disponíveis na forma orgânica. E os preços dos orgânicos então?

O que diz o bom senso? Como a Cecília Meirelles na poesia, bom senso para mim é ‘isto ou aquilo’. É melhor escolher apenas verduras, legumes e frutas orgânicas e ver seu filho ficar sem legumes e frutas na alimentação diária; ou vê-lo comer duas ou três variedades de legumes e frutas não orgânicos por dia? É melhor não passar ‘veneno’ na pele e ficar exposto aos raios solares nocivos ou não usar filtro solar industrializado e sofrer os efeitos do sol? (Olha que ao contrário da imensa maioria dos brasileiros. nós vamos à praia das 9h ao meio-dia viu gente?)


cena do filme “Mulheres Perfeitas” (2004)

Da minha parte, dou verdadeiros e sinceros parabéns às mães de mais de um filho pequeno que compram só produtos orgânicos, que nunca dão doces industrializados aos filhos, que não usam caldo de cubinho no dia-a-dia, que vão à praia de madrugada e passam zinco no corpo dos filhos. E que sozinhas cozinham e faxinam a casa e não têm babá. E que trabalham fora. E que ainda vivem para ler livros, ver filmes, sair com os amigos e conviver com a família. E ainda estão em forma. Eu, infelizmente, sou muito imperfeita.

Quem me acompanha no Twitter já me viu comentar algumas vezes sobre este livro do David Lebovitz, The Sweet Life in Paris. Um daqueles livros que a gente lê sem ver o tempo passar, ‘economizando’ e ficando até com saudades dele depois que acaba. Me peguei sorrindo e até rindo alto sozinha com ele por aí.

O grande barato do livro é que o David Lebovitz, além de ser um bom blogueiro/autor de livros de culinária, é também um excelente cronista de costumes. Neste livro ele relata com bastante franqueza suas frustrações e seus choques culturais como americano vivendo em Paris, usando na medida certa doses de humor e de fina ironia, e desta forma passando uma imagem positiva da sua vida em uma cidade que lhe era totalmente estranha.

Tendo mudado de cidade duas vezes nos últimos 10 anos, vivi os inevitáveis choques culturais e paguei minha cota de micos. Mas, além deles, tive surpresas agradáveis e conheci muita gente bacana. A ideia – óbvia mas que muita gente não saca tão facilmente – é focalizar no que o novo lugar tem de bom para oferecer e procurar usufruir ao máximo disto. E relevar os micos. E se adaptar à cultura, não exigindo que ela se adapte a você.

“What helped was that I understood the food and tried my best to adapt to the culture, rather than trying to make the culture adapt to me”(D. Lebovitz)

No livro há episódios muito engraçados, como quando ele descreve suas táticas para não ser ‘esmagado’ pelas pessoas nas filas. Ou quando tenta entender a obtusa burocracia francesa. Ou ainda quando descreve os percalços domésticos de alguém que não sabe nem falar direito a língua nativa e precisa ‘expulsar’ um pintor que não termina nunca seu trabalho na casa. Isto já é difícil no seu país e língua natais, imaginem em outro idioma ;-) E ele consegue ser tão crítico com os parisienses quanto com os americanos que dão seus foras visitando Paris.

Entre receitas bacanas e dicas dos seus lugares prediletos na cidade, e no meio das experiências frustrantes, chateações e estranhezas, David nos diz que há muita coisa bacana para ver e aprender. E que a vida é boa :-)

“Everyday in Paris isn’t always so sweet. Although I’ve tried my best to fit in, no matter where you plant yourself, there’s certain to be ups and downs. I embarked on a new life in Paris without knowing what the future would hand me. Because of that, my life’s turned into quite an adventure, and I often surprise myself when I find that I’m easily mingling with the locals, taking on surly salesclerks, and best of all, wandering the streets in search of something delicious to eat” (D. Lebovitz)

Para dar mais sabor a este post e como aperitivo do livro, aqui vai a receita dele que melhor descreve o estilo do David Lebovitz – picante e doce na medida certa, para abrir o apetite e deixar a gente feliz.

Spiced nut mix

2 xíc (chá) ou 270 g de castanhas variadas: nozes, amêndoas, amendoins, nozes pecãs, avelãs, castanhas-de-caju ou castanhas-do-pará
1 col (sopa) ou 15 g de manteiga com sal derretida
3 col (sopa) ou 45 g de açúcar mascavo
½ col (chá) de canela moída
1 col (chá) de pimenta chilli em pó
2 col (sopa) de maple syrup
½ col (chá) de cacau em pó
1 ½ col (chá) de flor de sal (ou sal grosso)

Pré-aqueça o forno a 180º C. Espalhe as castanhas em uma assadeira e leve ao forno por 10 minutos. Enquanto isso, numa vasilha grande misture a manteiga, o açúcar mascavo, a canela, o chilli em pó, o maple syrup e o cacau em pó. Jogue as castanhas já mornas na vasilha dos temperos e misture bem. No fim, polvilhe o sal.

OBS. A @fezoca e a @entrepanelas também fizeram posts legais que mencionam este livro aqui e aqui.

Ando meio cansada desta ode consumista que vem se espalhando feito praga nos últimos tempos. Hoje, lendo este post da Taís Vinhas do Ombudsmãe, percebo que não sou só eu que tenho esta birra com um dos hobbies mais cultuados pelos brasileiros – as compras.

Fico boba em ver o tamanho e a quantidade das malas dos brasileiros nos check-ins dos aeroportos! Me dá vergonha, juro… Nos EUA, a grande Meca deste povo do consumo, trocam facilmente passeios por compras. Ouvi recentemente de uma amiga que deixaram de ir aos parques da Universal Studios ‘porque senão não daria tempo de fazer compras’ – alô?? E compram nos outlets como se não houvesse amanhã. Sim, é mais barato. Mas será que precisa comprar tanta coisa?

Ontem na lavanderia uma pessoa deixava mais de 15 casacões para lavar. Detalhe: contava que a família, de quatro pessoas, tinha viajado para o frio. Não pude deixar de lembrar que minha família de quatro pessoas também acabou de voltar do frio e que estava na lavanderia buscando os QUATRO casacos que tínhamos levado.

Não é só gente dita ‘de posses’ não! Escutei um dos garotos que jogava futebol na rua, outro dia, vangloriando-se de possuir mais de 10 chuteiras. Vejo minha funcionária se endividando por causa de roupas e bijuterias novas. E celular? É um por ano! “Ah, mas a gente troca os pontos, não custa nada!” Há gente que realmente acredita nesta balela? Fora o desapego ecológico – eu me sinto mal quando jogo qualquer tipo de eletrônico no lixo, juro.

Não posso com gente que acha mais importante dar um presente caro no seu aniversário do que telefonar, se mexer para dar pessoalmente um abraço e mostrar carinho, afeto e atenção. Tem acontecido tanto ultimamente… Já percebi que este é o grande ‘barato’ de alguns amigos e há casos em que infelizmente entro na dança para não ter dissabores e recebo telefonemas eufóricos agradecendo… “Ah… não precisaaaaaaava gastar tanto comigo!!”, mas lambendo os beiços de emoção.

Sim, eu sou consumista! Assumo. Vai ter gente que me conhece bem jogando pedras no meu telhado de vidro :-) Mas a questão não é esta. É o exagero. É a vinculação do afeto aos bens materiais. É o endividamento, o cheque especial, as prestações ao invés da poupança para o futuro. Ou seja, a herança e os valores que queremos passar aos nossos filhos. Obs. Este texto foi originalmente publicado no blog A Roupa Nova do Rei.

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